
O cenário do financiamento habitacional brasileiro está prestes a registrar um marco histórico em 2026, com a Caixa Econômica Federal liderando uma expansão sem precedentes no setor. O banco público, que tradicionalmente domina o segmento de crédito imobiliário no país, iniciou o ano com o maior orçamento já disponibilizado para essa finalidade e projeta superar todos os recordes anteriores até dezembro.
A combinação que sustenta esse otimismo institucional é clara: maior disponibilidade de recursos financeiros e uma demanda por habitação que permanece robusta. Roberto Carlos Ceratto, diretor de habitação da Caixa, sintetizou essa equação durante evento do Bradesco, destacando que "conseguimos novas fontes de recursos e, apesar da mudança de gerações, as famílias continuam querendo casa".
Mudanças regulatórias liberam bilhões para o mercado
A base financeira que sustenta a expansão projetada pela Caixa tem origem em alterações regulatórias implementadas no ano anterior. O governo federal eliminou duas restrições significativas que limitavam o crédito imobiliário via poupança, criando condições para uma injeção substancial de recursos no setor.
A primeira mudança eliminou a obrigatoriedade de os bancos repassarem 20% dos depósitos ao Banco Central como compulsório e removeu o teto de 65% para financiamento habitacional com esses recursos. O impacto prático dessa medida foi a liberação de até R$ 50 bilhões adicionais para o mercado imobiliário.
A segunda alteração envolve uma transição gradual ao longo de 2026, com o compulsório reduzindo para 15% antes de ser totalmente zerado em 2027. Esse movimento já se reflete no orçamento do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) da Caixa, que saltou de R$ 64 bilhões em 2025 para R$ 97 bilhões no ano corrente.
Paralelamente, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) também ampliou sua contribuição, destinando R$ 144,5 bilhões à habitação em 2026, contra R$ 126,8 bilhões no período anterior. O Fundo Social do Pré-Sal complementa essa estrutura com R$ 30 bilhões adicionais, reforçando a estabilidade do sistema de financiamento.
Expansão do acesso ao crédito para diferentes perfis
A maior disponibilidade de recursos permitiu à Caixa ampliar significativamente o leque de beneficiários do crédito imobiliário. O banco retomou o financiamento de imóveis acima de R$ 2,25 milhões, faixa que havia sido restringida anteriormente, e voltou a permitir a contratação de mais de um financiamento simultâneo com recursos da poupança.
Essas medidas democratizam o acesso ao mercado tanto para o comprador do primeiro imóvel quanto para investidores mais experientes. Para a carteira com recursos do FGTS, a instituição projeta crescimento entre 8% e 12% sobre os R$ 569,4 bilhões registrados ao final de 2025. Já a carteira com recursos próprios deve avançar entre 9,5% e 13,5% sobre os R$ 368,7 bilhões do ano anterior.
Contexto de juros e perspectivas do setor
Apesar do cenário de taxa Selic ainda elevada, os executivos do setor mantêm otimismo quanto às perspectivas do crédito imobiliário. A política da Caixa é trabalhar com as menores taxas do mercado, e Ceratto não identifica motivos para mudanças abruptas nessa estratégia.
Romero Albuquerque, diretor de crédito imobiliário do Bradesco, complementa essa visão ao observar que "quando você tem uma tendência de baixa, que é o que acontece esse ano, independentemente da velocidade, as pessoas ficam com mais apetite para tomar uma decisão de longo prazo".
O setor como um todo corrobora essa perspectiva positiva. A Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) projeta crescimento de 15% nas concessões via SBPE em 2026, com volume atingindo R$ 180 bilhões, revertendo o recuo de 13% registrado em 2025. O mercado demonstra renovada confiança na aquisição da casa própria como investimento e realização pessoal.
Fonte: Investidor 10